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Carne sim ou carne não? Uma escolha além dos extremos

Atualizado: 31 de jul.


Carne sim ou carne não?

A pergunta parece exigir uma resposta definitiva. De um lado, a carne tratada como protagonista inevitável de qualquer refeição. Do outro, a ideia de que a única escolha possível seria eliminá-la completamente.

Entre esses dois extremos existe um território menos confortável, mas talvez mais interessante: comer carne com menos frequência, mais atenção e maior respeito pelo ingrediente.

Essa reflexão está por trás de ANIMALE, menu criado pelo chef Roberto Rebaudengo para o LIDO amici di amici. O cardápio reúne língua de vitela, carne bovina curada, javali, coelho, bochecha e cordeiro.

Não são carnes escolhidas para demonstrar luxo. São ingredientes que ajudam a discutir aproveitamento, tradição, memória e a maneira como nos relacionamos com aquilo que comemos.

paleta de cordeiro em fricassea
paleta de cordeiro em fricassea

Comer menos carne não significa desprezá-la

Durante muito tempo, a presença de carne foi associada à prosperidade. Um prato farto, um grande corte e uma mesa abundante representavam celebração e hospitalidade.

Hoje, porém, também conhecemos melhor o peso ambiental, econômico e ético das nossas escolhas alimentares. Isso não obriga todas as pessoas a chegarem à mesma conclusão, mas torna difícil continuar tratando a carne como um ingrediente banal e ilimitado.

No cotidiano do LIDO, a maioria dos pratos é vegetariana. A cozinha da Ligúria oferece um repertório naturalmente rico em massas, vegetais, ervas, leguminosas, azeite, queijos e preparos à base de grão-de-bico.

[LINK INTERNO: artigo sobre culinária da Ligúria]

A carne aparece quando sua presença realmente altera a receita. Não é acrescentada apenas para que o prato pareça mais completo ou mais valioso.

Essa escolha permite inverter uma lógica comum: em vez de comer carne todos os dias sem pensar muito sobre ela, podemos reservá-la para momentos em que sua qualidade, sua história e sua preparação façam diferença.


Do animal não existem apenas filé e picanha

Uma das contradições do consumo contemporâneo está em desejar carne, mas aceitar apenas uma pequena seleção de cortes.

Filé-mignon, contrafilé e picanha são reconhecidos imediatamente. Língua, bochecha, rabo, coração e outros músculos costumam provocar maior resistência, apesar de fazerem parte do mesmo animal.

Quando apenas os cortes mais valorizados são desejados, o aproveitamento se torna desequilibrado. Recuperar partes menos procuradas não é uma excentricidade gastronômica. É uma prática antiga das cozinhas populares e familiares.

A língua de vitela servida com salsa verde, por exemplo, pertence a um repertório de receitas italianas em que tempo, ervas e acidez transformam um ingrediente simples.

A bochecha bovina exige cocção lenta. Bem preparada, desenvolve uma textura delicada e um sabor profundo que dificilmente seria alcançado com um corte pensado para grelha rápida.

Não se trata de comer todas as partes por obrigação. Trata-se de compreender que, quando um animal é utilizado como alimento, selecionar apenas suas partes mais prestigiadas não é necessariamente a atitude mais respeitosa.


Carnes diferentes não são sinônimo de carnes exóticas

A expressão “carnes especiais” costuma ser associada a raças valorizadas, grandes cortes e preços elevados. Mas uma carne pode ser especial por outros motivos.

Pode ser um coelho preparado em ragù, como ainda acontece em muitas cozinhas regionais italianas. Pode ser o javali, de sabor mais selvagem, cozido longamente com vinho e ervas. Pode ser uma carne bovina curada em sal, servida em pequenas fatias, como na tradição da carne salada trentina.

O interesse não está em transformar o animal em curiosidade ou espetáculo. Está em reconhecer diferenças de textura, intensidade e técnica.

Uma lasanha com ragù de coelho não precisa parecer estranha. Ela continua sendo uma lasanha: massa fresca, camadas, molho e calor de forno. A novidade está na delicadeza da carne e na possibilidade de conhecer outra tradição italiana além do ragù bovino mais habitual.

Da mesma forma, uma pappardelle com ragù de javali não vale apenas porque o javali é menos comum. O prato faz sentido quando massa, café, carne, vinho e tempo de cozimento formam um conjunto coerente.


A técnica também é uma forma de respeito

Respeitar um ingrediente não é apenas falar sobre sua procedência. É saber prepará-lo.

Cada parte do animal exige uma decisão diferente. Uma carne magra destinada à cura pede controle de sal e tempo. A língua precisa de cozimento cuidadoso e limpeza precisa. A bochecha e a paleta necessitam de horas para que suas fibras se transformem. Um ragù não deve ser apressado apenas para cumprir o horário do serviço.

A técnica permite que cortes menos valorizados revelem qualidades que não seriam percebidas em um preparo inadequado.

Também ajuda a reduzir desperdícios. Caldos, aparas, gorduras e fundos podem participar de outras etapas da cozinha, desde que sejam manipulados de maneira segura e intencional.

Isso não torna automaticamente qualquer prato sustentável. Mas cria uma cozinha mais responsável do que aquela que mede valor apenas pela raridade ou pelo tamanho do corte.


Comer com consciência não precisa eliminar o prazer

Há um risco de transformar toda conversa sobre alimentação em julgamento moral. Quando isso acontece, a mesa perde justamente uma de suas funções: aproximar pessoas, culturas e memórias.

Consciência não deveria significar culpa em cada garfada. Pode significar fazer perguntas melhores.

Com que frequência comemos carne?De onde ela vem?Quanto dela é desperdiçado?Por que aceitamos alguns cortes e recusamos outros?A preparação valoriza realmente o ingrediente?O prazer proporcionado por aquele prato justifica sua presença?

As respostas não precisam ser idênticas para todos. O importante é abandonar a ideia de que comer é um gesto neutro e, ao mesmo tempo, preservar o direito ao prazer, à curiosidade e à celebração.


ANIMALE: um menu para levar a discussão à mesa

O menu ANIMALE nasceu para o Dia dos Pais, uma data tradicionalmente ligada a grandes almoços e pratos de carne.

Em vez de repetir essa associação automaticamente, o LIDO decidiu torná-la visível e questioná-la.

O percurso começa com carne bovina curada e língua de vitela. Segue com pappardelle ao café e ragù de javali ou lasanha verde com ragù de coelho. Nos pratos principais, aparecem bochecha bovina ao vinho tinto e paleta de cordeiro assada lentamente. Para terminar, tiramisù de frutas vermelhas e torta Sacher.


É uma celebração da carne, mas não de seu consumo cotidiano e irrefletido.

ANIMALE reconhece algo simples e frequentemente escondido: carne é vida que foi. Por isso, talvez deva ser menos automática, menos desperdiçada e mais profundamente saboreada.

Carne sim ou carne não?

No LIDO, a resposta é: carne quando houver uma boa ocasião, com consciência e respeito.

 
 
 

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